A ordem só
pode ser restaurada depois do caos. Quando cheguei àquela cidade, que sinto
como minha, a polícia tentava instaurar a ordem entre o caos causado pelos
manifestantes. Quanto a mim, seguia serena no autocarro, a tempestade já tinha
passado, e ali estava eu, devidamente ordenada com esta coisa de existir.
Lembro-me que até o céu parecia mais azul, e respirar parecia-se efectivamente
com respirar, já não sufocava, era mais fácil. Estava tudo no seu devido lugar,
a acontecer como tem de acontecer.
Ia
testemunhando a desordem, num fora de mim que raramente me permito, lembro-me
de pensar que mais cedo ou mais tarde as pessoas lá de fora iriam encontrar o
ponto onde se estabeleceu a ruptura, iriam repará-lo, e a harmonia seria
reposta, mas já nada seria como era antes, nunca é. A harmonia é sempre
diferente, e a maioria das vezes breve. Exige uma manutenção cuidada, que
resulta da soma de experiências e das ferramentas que fomos encontrando. Nada voltaria
a ser como era. E tudo estava a acontecer como devia acontecer. A crença é
incauta.
Eu ordenada
nas coisas de dentro, eu testemunha das coisas de fora. Meditativa e relaxada,
entreguei-me à previdência. Aceitar que há um destino foi coisa que me levou
tempo, mantenho-me no entanto uma acérrima defensora de que a escolha da
reacção ao imprevisto é sempre nossa. Devo dizer que Cronos foi implacável com
aquela harmonia que era minha. Brevidade necessária? E tudo continuava a
acontecer como tinha de acontecer. No dia seguinte pude escolher a cor do céu.
A harmonia tinha sido alterada. A cidade amanheceu ordenada, testemunha do caos
que me provocara.
Diana V.